
O SoundCloud lançou, no dia 26 de agosto, uma função de venda direta de músicas que permite aos artistas vender faixas para os fãs sem sair da plataforma e sem entregar nenhuma percentagem para a empresa. A novidade está em fase de testes nos Estados Unidos e pode mudar a forma como artistas independentes recebem seu dinheiro.
Como funciona, na prática
A fase beta começou com cerca de 200 artistas norte americanos, todos com o plano Artist Pro e o Fan Support ativado. Cada um escolhe as faixas que quer vender, define o preço que achar justo e disponibiliza o arquivo em MP3 ou WAV. Do lado do fã, o processo é simples: você descobre a música, compra e baixa, tudo dentro do SoundCloud. O artista acompanha as vendas pelo Artist Studio e pelo painel do Fan Support .
Eliah Seton , CEO da empresa, resumiu bem a ideia por trás da novidade: “os artistas devem poder construir a sua audiência num único lugar, numa única plataforma.” A promessa é ampliar o acesso aos poucos, com a meta de alcançar todos os criadores elegíveis ainda neste outono, no hemisfério norte.
Comissão zero não é o mesmo que dinheiro limpo
Vale um alerta aqui. O SoundCloud não fica com nada da venda, isso é verdade. Mas o artista também não recebe exatamente o valor que definiu. Taxas de processamento de pagamento e impostos continuam a sair do total, por isso quem for definir preços deve ter isso em conta antes de fazer contas na cabeça.
Um problema que já existia e agora tem solução
Os números que o próprio SoundCloud divulgou mostram bem porque essa função fazia falta. Mais de 250 mil artistas já tinham links espalhados por cerca de 2,4 milhões de faixas, todos levando fãs para lojas fora da plataforma. Isso significa mais de 500 mil pessoas saindo do SoundCloud todos os anos apenas para comprar uma música. Em uma pesquisa interna, 28% dos artistas entrevistados disseram que já vendem downloads ou que gostariam de começar, divididos em partes praticamente iguais.
Faz sentido, então, que a plataforma queira travar essa fuga. Em vez de perder tráfego para o Bandcamp ou para lojas próprias de cada artista, o SoundCloud passa a reter essa venda dentro de casa. Ganha a empresa, mas ganha também o artista, que deixa de precisar gerir três ou quatro canais diferentes só para vender uma faixa.
O que isto significa para o rap e para quem vive dele
Aqui está o ponto que interessa mesmo a quem acompanha hip hop de perto. Muito antes de existirem gravadoras dispostas a apostar em um MC desconhecido, o rap já vivia disso: venda direta, de mão em mão, em shows, nas esquinas, sem ninguém ficando com uma fatia do bolo. A mixtape sempre foi a prova de que o gênero sabe se sustentar sozinho quando precisa. O que o SoundCloud está lançando agora é basicamente essa mesma lógica, só que em formato digital.
Para um rapper independente, isso pode ser a diferença entre depender apenas de streams ou ter uma segunda entrada de dinheiro. E o hip hop sente esse aperto mais do que muitos gêneros: é um dos mais ouvidos em streaming, mas também é um dos que mais sofrem com o parcelamento por reprodução. Existem artistas com números de plays impressionantes que continuam sem conseguir viver só disso.
Depois, há o fator superfã, e no rap esse fã existe em peso. O próprio SoundCloud reconhece que esse tipo de ouvinte pode gastar até cinco vezes mais do que alguém que só ouve casualmente. É essa base que segura muitos artistas emergentes até que um contrato maior apareça, se é que aparece.
Para o rap angolano e africano, que ainda está a encontrar o seu caminho quando o assunto é monetização digital, vale a pena ficar de olho nesta ferramenta. Se um dia o alcance sair dos Estados Unidos, artistas daqui podem finalmente ter uma via direta para transformar audiência em rendimento real, sem precisar de plataformas terceiras nem de acordos que ficam com parte do que é deles por direito.
Comissão zero já é uma boa notícia por si só. Mas o que importa mesmo, no fundo, é isso: devolver ao artista o que o hip hop sempre defendeu, que é ter controle total sobre a própria música e sobre como ela chega até quem a ouve.


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