
A mesa está posta. E todos podem sentar-se para desfrutar d’A Última Ceia do Bandido. Nesta Sexta-Feira Santa (03), um dos melhores rappers de Angola e da Lusofonia lançou o seu mais recente álbum de estúdio, intitulado precisamente assim, um título que carrega peso, intenção e abordagem antes mesmo de se carregar no play.
O álbum convoca uma gramática bíblica, mas não tem nada a ver com narrativas religiosas no sentido convencional. Aqui, a Bíblia é metáfora. A liturgia é a rua.

A fé é o encontro com o asfalto, é tudo sobre o nome que se constrói. O pecado é a traição. O Novo Testamento é o começo ou o fim de uma irmandade. O milagre do vinho é a porta aberta para a perda, a ansiedade e todas as conquistas alcançadas com Força Suprema.
Entre a falsidade e as vitórias do Osvaldo que virou Rikinho, a dualidade é constante. A Salvação aqui não é imposta por conceitos bíblicos, é o encontro entre quem somos e quem queremos ser. “Pretos com Pretos sempre foi a ideia do Ocidente em nos ver a sucumbir, é nós contra nós”, e Prodigio não deixa essa verdade passar em silêncio.
A Missa é sobre quem tem o direito de ensinar: enquanto não percorreres o mesmo caminho, não podes dar lições a quem está no topo, nem ignorar quem fez o seu nome mesmo sendo subestimado. O Salmo é sobre as dores da rua, “tu és o meu pastor e as ruas são o meu senhor”, e é claro que Prodigio conversa diretamente com o Rap Game.
A Virgem Maria é o storytelling de todas as mulheres, entre o desejo de ser e o de ser desejada, numa luta narrativa sobre a violência contra as mulheres. A Palma Queimada é sobre a traição, nem sempre podemos colocar as nossas palmas no fogo de quem julgamos ser nosso: “da alma gémea à alma penada”. E A Última Ceia é a grande questão que paira: será este o fim ou o começo de algo ainda maior? Quem é rei nunca se apaga.
Este é o álbum que dá mais do que aquilo que o ouvinte procura. Prodigio garante a sua lealdade às origens, confirma a sua Supremacia e encerra as dúvidas sobre quem é e para onde caminha. E faz isso com contexto pessoal real e a partida do seu pai, que o mergulhou na ansiedade e na depressão, e que o obrigou a ficar um ano longe dos holofotes para se reencontrar.
Esse silêncio ouve-se no álbum depois de dois anos a preparar este álbum e que por sinal a critica destaca este álbum como o mis maduro de todos que ele já lançou.
As participações reforçam o cardápio. Valete quebra qualquer dúvida que restasse sobre Prodigio ser um liricista de primeiro nível. T-Rex traz encanto e magnetismo no refrão. Slow J faz agora parte do universo do Prodigio, o encontro no 4 de Fevereiro é um hit garantido sobre identidade. GSon e Bispo aprofundam a introspecção. Ana Joyce encanta com o refrão em O Meu Salmo.
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No final, o Rap é sempre sobre a clareza encontrada na certeza. E a certeza é que Prodigio traz aqui o Prodigio dos Prodigios do “Castelo“, o artista que surgiu em 2015 com seu primeiro álbum de originais, mas desta vez ainda maior nos storytellings e nos enigmas por resolver. O fim ou o começo. A questão ainda está no ar.
Créditos do Álbum
Produção musical:
Produtores: Smash (2), Shalom Beat (2), Valete & Prodigio, Nanu & Kidonov, Ghetto Ace (2), Stereossauro (2), Nanu & GOIAS, Iano, Mirela & Luci
Baixo e Guitarra: Boper, Marito
Captação: Pablo
Mix: Ricardo Estêvão
Master: Dave Huffman
Distribuição: Universal Music PT
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